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TAMANDUÁ -
ITAPECERICA
O maior dos meus amores
(Célia
Lamounier de Araújo)

Cadê o galo, as galinhas e as frutas?
Procurei pelos quintais e não encontrei mais.
O pomar da minha infância, a pinguela do
pastinho,
o porão do
palacete, a despensa farta, o forno na casinha
do quintal, o
galinheiro, a festa das goiabas, laranjas,
jabuticabas, o
lagarto, as abelhas (que susto!) e lá no alto
do pastinho o
curral, as vacas. Na beira do Rio
Vermelho,limpinho, limpinho, a caverna do ouro
(que ouro?) das estripulias.
Cadê as vacas, na beleza da verde pastagem?
Procurei pelas estradas e não encontrei mais
nada.
O curral da minha infância, os cafezais, o
cantar das
seriemas,o pasto de araçás e gabirobas, o milho
assado,
as correntes no
pneu da jardineira, a máquina de "fazer"
arroz, as
pastorinhas passeando na fazenda Diniz, o
monjolo,
e aqui
nas ruas, lá em baixo o matadouro (ponto final)
das vacas
que assustavam a todos, uma entrou
no correio
(lembra?) na tentativa de voltar aos pastos.
E o bezerrinho
xereta, filho da Malhada, se perdeu no rio.
Não tem mais a
música do carro de bois, nem porteiras tantas,
para abrir, só
um canto ao longe de um alegre bem-te-vi.
Cadê os meninos fazendo algazarra, pulando maré?
Procurei nas ruas e não encontrei mais.
Os meninos e as meninas andam crescendo depressa
demais,
pulando
as etapas. O tempo hoje é curto e não sabem
brincar
com
pedrinhas, cirandas, bonecos de panos (vovó, cê
tá doida?
De panos?)
costurar roupinhas, juntar embondos, pique de
esconder,
cantar serenatas, catar bolinhas de gude,
pagar prendas,
dar gargalhadas, ficar de castigo (só ficar
é muito melhor)
sem ligar o rádio, para estudar.
Hoje o castigo
é sair do computador, não assistir a TV.
É o progresso.
Mas que
progresso é esse que fecha as pessoas
e retira a
beleza de andar e conversar?
Cadê a festa dos missionários, dos capuchinhos?
Procurei nas praças e ninguém sabe dizer.
De verdade mesmo, ninguém se lembra disso,
será que
existiu mesmo? Nem padre usa mais batinas,
nem freiras
existem (quase) aqui foram-se.
Mas eles vinham
de ano em ano e era uma festa.
Para ensinar
catecismo, os dez mandamentos, mentir é pecado,
amar só depois
de casados (aqui no Brasil?) e os nobres
políticos
hão de ser respeitados, fazem testamentos
e
doações, cheios de ideais trabalham, trabalham,
sem nenhuma
mesada (tá delirando, vovó? Posso rir?).
Verdade, é o
que sempre ouvi.
Cadê a música, a orquestra, as procissões,
o sino tocando
e chamando?
Procurei...
E pelo menos
isso, nesta minha terra, encontrei!
Os filhos voltam, os amigos chegam, o povo se
encontra nas
datas festivas. Nas praças e ruas,
nas casas e
sítios, todos se agrupam, trazendo alegria.
Cumpadre,
padrinho, a benção meu filho...
Que a vida é
uma roda e na volta que dá, sempre traz
mais um dia; é
hora de almoçar. Sá dona, ponha na mesa
o franguinho, a
couve e o angu... E mais lenha no fogo
(não, não é
isso mais não!) traga cerveja e carvão
que o churrasco
já vai começar, tá cheirando,
e não tem hora
de acabar...
Abaixa
esse som ai, que eu gosto é de conversar.
De qualquer forma, passa o tempo, passa o boi,
passa a boiada
(num passa mais não) e eu
estou aqui
calada (calada, vó? Cê escreveu tanto!)
pensando no meu
sonho de faculdades para o meu torrão
(de açúcar?)
talvez sim... Torrão natal de açúcar...
Tamanduá gosta
de Formiga, formiga gosta de açúcar
e açúcar lembra
uma pedra
(Mãe, me dá uma
pedrinha de açúcar?)
e a pedra hoje
é ITA... Itapecerica, de ontem, de agora,
com todo o seu
encanto, com toda a sua paz...
Itapecerica, o maior dos meus amores.
*****
Notas:
cadê = quede, que é de, onde está?
estripulias = travessuras
jardineira = ônibus
embondos = coisas, trastes de pouca serventia
torrão natal = terra onde se nasceu
xereta - bisbilhoteiro

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